3 de dez de 2004

Homens brasileiros se engajam na luta pelo fim da violência



Há cinco anos, carregando uma fita branca no peito, um grupo de homens vai às ruas de Recife, no Dia Internacional de Enfrentamento  à Violência contra a Mulher, 25 de novembro, para protestar contra a violência masculina que atinge uma em cada cinco mulheres no Brasil. A iniciativa do Instituto Papai deu impulso à criação do Movimento de Homens pelo Fim da Violência contra a Mulher, organizador da Campanha do Laço Branco, e tomou as ruas de outros estados brasileiros. Criada no Canadá como reação ao assassinato de 14 alunas da Escola Politécnica de Montreal em 1989, a Campanha ganhou sua versão brasileira através da iniciativa do Instituto Papai. 

No próximo dia 10, a campanha vai promover um ato público e uma caminhada em Serra Talhada, no Sertão Central de Pernambuco. E no dia 14, organiza, em parceria com movimentos de mulheres, o seminário sobre violência contra a mulher, no Centro Integrado de Saúde Amauri de Medeiros (Cisam), em Pernambuco, que atende adolescentes e mulheres vítimas de violência sexual.

O foco dessa organização civil sem fins lucrativos é estudar a construção social do homem. Estudar e transformar. Para o instituto, a violência é um dos traços característicos da masculinidade, fruto de uma construção milenar. Esse modelo começa a se delinear quando ainda criança o homem recebe a primeira arma de brinquedo. Desde esse momento, ele é incentivado a todo tipo de comportamento machista – e nele, está a prática da violência, da guerra.

Não por coincidência, o homem está entre as maiores vítimas da violência armada – os jovens do sexo masculino entre 15 e 24 anos são os que mais morrem, e também são os que mais cometem violência – o parceiro ou companheiro é o principal agressor em 53% dos casos de ameaça com armas à integridade física de mulheres.

“Os homens sempre estiveram presentes na maior parte dos casos de violência. É preciso olhar para esse problema pela perspectiva de gênero”, diz um dos coordenadores do Instituto Papai, Benedito Medrado. Ele explica que o Instituto traz o homem para a discussão, sempre frisando que a violência contra a mulher não é um problema só delas, mas problema dos homens e da sociedade, onde são produzidas condições para a violência doméstica. 

Revisando o modelo de 'macho'

“Até 1985, um dispositivo legal garantia ao homem a legítima defesa da honra. Essa cultura se mantém muito forte”, lembra Medrado. Sempre depois de estudar as origens desses males machistas, a equipe de pesquisadores parte para campo. Assim, surgiram o Grupo Atuação, no bairro da Várzea, e o Grupo de Homens Jovens de Camaragibe, que envolve cerca de 30 jovens do sexo masculino, sobretudo negros e pobres, moradores da periferia de Recife. Atividades como oficinas, palestras e produção de peças teatro atraem esses jovens para a discussão sobre a violência contra a mulher, a paternidade, drogas e Aids. No foco dessas questões, a construção da masculinidade. 


“Cresci ouvindo na minha comunidade o vizinho espancar sua mulher. Todo mundo dizia aquele ditado que em briga de marido mulher, ninguém mete a colher”, conta Flávio Galdino, 20 anos, morador do bairro da Várzea e membro do Grupo Atuação. Já há dois anos no grupo, Galdino tornou-se um agente multiplicador do combate ao machismo. “Quando um colega meu é xingado pela mulher, ele acha que precisa fazer alguma coisa, não pode deixar passar em branco. Tem que ser o maioral”, conta Galdino. O que fazer? “A gente prega a conversa, a conciliação”, ensina o rapaz.

A proposta do Instituto Papai de revisar o modelo do “macho” propõe uma abordagem feminista da igualdade de gênero, onde homem e mulher saem ganhando. “Tentamos mostrar a esses jovens que esse modelo sempre é prejudicial às mulheres, mas também aos homens”, diz Benedito Medrado. Não há fórmula simples para transformar um modelo de raízes tão profundas. “O que propomos não é tirar o homem e colocar a mulher. Mas entender que o feminismo é uma idéia, uma proposta, e não um corpo.” É um caminho possível, acredita Medrado. 



Fonte: http://ww.desarme.org.br

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