16 de mai de 2004

Salvador/BA: Instituto Papai realiza oficina com homens pelo fim da violência de gênero


Vozes femininas que sempre surgem em defesa das mulheres vítimas de agressão sexual e doméstica ganharam um importante coro neste final de semana. Uma oficina ministrada para homens do bairro do Calafate foi instrumento de conscientização daqueles que são os autores da violência contra a mulher. Um representante do Instituto Papai, com sede em Recife, veio a Salvador ministrar aula a 24 jovens. A organização civil sem fins lucrativos tem como objetivo mobilizar o sexo masculino na construção de uma cultura de não-violência.

O encontro, realizado no colégio Luís Eduardo Magalhães, na Avenida San Martin, foi uma oportunidade de promover uma reflexão sobre as consequências da cultura machista que prevalece na sociedade patriarcal. "Muita gente justifica hoje a atitude violenta de homens alegando questão genética, hormonal. Isso não existe! A violência de homens contra mulheres é uma questão social, cultural e histórica", argumentou o representante do Instituto Papai, Daniel Lima.

Os jovens que foram convidados a participar da atividade, não tiveram vergonha de usar um laço branco no peito, símbolo da campanha internacional, que surgiu no Canadá e hoje acontece em dez estados brasileiros e 30 países no mundo. Morador do Calafate, Jeferson Arcanjo, 22 anos, teve oportunidade de repensar, desde cedo, sobre a violência de gênero com a qual convive bem de perto. "No meu bairro, já presenciei este tipo de agressão. Um vizinho foi a vida toda infiel à esposa, mas quando ela fez o mesmo, ele acabou com o rosto dela de tanta pancada, raspou cabelo e a sobrancelha de navalha. A sociedade contribui para isso porque acha normal o homem ser infiel, bruto e violento. Não acredito que estas atitudes tenham feito dele mais homem".

Estatísticas da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) apontam o aumento do número de queixas nos quatro primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Mais conscientes, as vítimas vêm denunciando a violência, que antes ficava restrita às quatro paredes da casa. Ocorrências de ameaça passaram de 722 para 799, enquanto as de agressão subiram de 1.033 para 1.141. Já os registros de lesão corporal aumentaram de 635 para 722. A palestra de ontem mostrou aos jovens participantes que não apenas o chamado "sexo frágil" é vítima da cultura de violência. "Em consequência desta construção social da masculinidade, os homens são as maiores vítimas de homicídios, acidentes de carro e dependência de drogas", acrescenta Daniel Lima.

A convite da ONG Coletivo de Mulheres do Calafete, esta foi a primeira visita de um representante do Instituto Papai a Salvador. "Nós mulheres estamos mais conscientes da importância de combater esta violência, mas é também importante mobilizar o público masculino para esta luta. Assim, poderemos estar prevenindo agressões e até morte", considera a coordenadora da ONG Coletivo, Marta Leiro. A intenção é organizar o lançamento da Campanha do Laço Branco oficialmente em Salvador ainda este ano. Conscientes de que dizer não à violência doméstica praticada contra mulheres não deve ser uma atitude restrita apenas ao sexo feminino, a campanha busca sensibilizar e transformar também o homem em porta-voz da causa. 


Por Fernanda Carvalho 
CORREIO DA BAHIA
Domingo 

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